Doutorado em Ciência e Tecnologia Alimentar (Microbiologia Alimentar) pela Universidade de Reading, no Reino Unido, Tim Hogg conta já com um vasto número de artigos científicos publicados em áreas como a enologia e a segurança alimentar. Actualmente, é professor e investigador da Escola Superior de Biotecnologia, da Universidade Católica Portuguesa.
Em entrevista ao Protege o que é Bom, Tim Hogg falou das prioridades da indústria agro-alimentar portuguesa para os próximos anos e da importância da sustentabilidade da cadeia de valor. E destacou o papel da rastreabilidade na garantia de segurança alimentar e da saúde do consumidor.
Esta é a primeira parte – de duas – de uma entrevista exclusiva de Tim Hogg ao Protege o que é Bom.
Protege o que é Bom: Como tem evoluído o sector agro-alimentar em Portugal nos últimos anos?
Tim Hogg: A nível qualitativo, o sector tem acompanhado as tendências globais. No entanto, revela ainda um atraso na modernização do sector de transformação, sobretudo em práticas e formas de actuar. Além disso, verifica-se que o efeito disciplinador do mercado é notório quando olhamos para as empresas que produzem e vendem para o mercado interno e as que estão focadas na exportação.
Protege o que é Bom: Qual deverá ser a prioridade estratégica da indústria portuguesa agro-alimentar para os próximos anos?
Tim Hogg: Nos últimos anos, o sector tem percebido que é necessário criar plataformas de colaboração em algumas áreas-chave como a internacionalização, a investigação e o desenvolvimento e segurança alimentar. É importante termos confiança no sector, que irá ser composto pelas empresas que se adaptam às novas realidades e que irá encontrar uma forma de identificar as suas prioridades e de as articular com os intervenientes ou actores. A saúde do consumidor e a sustentabilidade da cadeia alimentar serão as prioridades.
Protege o que é Bom: Considera que o consumidor tem cada vez mais percepção que a alimentação influencia a sua saúde e desempenha um papel crucial na prevenção de doenças?
Tim Hogg: Que a alimentação influência a saúde não há dúvidas e os consumidores devem ter esta frase bem presente. Quanto ao papel na prevenção de doenças, é óbvio que as dietas saudáveis têm uma grande importância, embora a relação causa-efeito nem sempre é tão linear quando se fala em alimentos específicos. O consumidor é a parte-chave nesta matéria e é importante que haja comunicação equilibrada e honesta por parte da indústria. Se as mensagens não forem honestas, as consequências, em termos de quebra de confiança com a própria cadeia alimentar, serão dramáticas.
Protege o que é Bom: Quais os factores que têm contribuído para a alteração do padrão alimentar da sociedade, nomeadamente para o aumento da procura de soluções alimentares de conveniência?
Tim Hogg: Os estilos de vida modernos, sobretudo urbanos, impulsionaram a existência de novas formas de satisfazer as necessidades alimentares. Muitas das quais estão associadas a um menor esforço por parte do consumidor. É natural que as pessoas não querem que a preparação das refeições seja uma tarefa penosa quando têm outras solicitações que não lhes roubam tempo. No entanto, há um risco: as gerações mais novas podem deixar de ter noção da ligação da produção primária aos alimentos que aparecem nos pratos ou pacotes.
Protege o que é Bom: Hoje em dia, os consumidores reivindicam conveniência e produtos alimentares que sejam simultaneamente saudáveis e seguros. É este o novo paradigma alimentar?
Tim Hogg: Seria perigoso admitir isso. Se pensarmos que este é o novo paradigma, então qual foi o anterior? Que os alimentos foram saudáveis e inseguros? A segurança (salubridade) alimentar deve ser tão generalizada e normal que nem deve ser questionada pelo consumidor, pelo que todo o esforço da indústria deve ser neste sentido. A partir daqui, cabe aos consumidores decidir qual é alimentação mais adequada para eles com base na informação veiculada através dos vários canais existentes. É, portanto, um direito dos povos terem acesso a alimentos nutritivos e culturalmente adequados, produzidos de forma sustentável e ecológica.
Protege o que é Bom: Qual é o melhor padrão alimentar a adoptar como garantia de saúde?
Tim Hogg: Para além das orientações banais – moderação, mais frutos e legumes etc. -, há necessidades e padrões mais específicos que vão depender de factores inerentes aos indivíduos e outros que têm a ver com o estilo de vida – como o exercício físico. À medida que, por um lado, conhecemos em mais pormenor os efeitos do consumo dos alimentos no funcionamento do organismo humano e, por outro lado, a composição genética de cada pessoa, podemos orientar melhor os indivíduos sobre a melhor forma de se alimentar.
















