Congresso APN: “Há comida suficiente no mundo, mas está mal distribuída”

A nossa visão dos alimentos e da alimentação depende metaforicamente da janela, isto é, do conceito que escolhemos. Esta foi uma das principais conclusões da conferência “Food Windows – security, safety sovereignty, satiety”, que foi apresentada na passada sexta-feira, em Lisboa, por Tim Hogg, professor da Escola Superior de Biotecnologia, da Universidade Católica Portuguesa.

O especialista, que falava durante o Congresso de Nutrição e Alimentação, começou por fazer uma abordagem aos conceitos “food security”, “food safety”, “food sovereignty” e “food satiety” , destacando a sua interdependência no panorama actual.

“Food security” é um conceito que se relaciona com a capacidade que a população tem para se alimentar de uma forma saudável e sustentável, nomeadamente no que diz respeito à disponibilidade (“food availability” – quantidades suficientes de alimentos), acesso e utilização de alimentos, afirmou o professor.

Trata-se, acima de tudo, de um assunto complexo de desenvolvimento sustentável, associado à saúde através da subnutrição, assim como de desenvolvimento económico sustentável, associado ao ambiente e ao comércio.

Por isso, deparamo-nos com uma série de opiniões contraditórias quanto a esta temática: há comida suficiente no mundo para alimentar a população, mas esta está mal distribuída; as necessidades futuras podem ou não ser satisfeitas com níveis actuais de produção e o conceito “food security” é o mais importante ou já não é necessário devido ao comércio global.

Já o termo “food sovereignty” – soberania alimentar – relaciona-se com o anterior, na medida em que também diz respeito à disponibilidade de alimentos e à capacidade que uma população tem de cultivar e distribuir alimentos de uma forma sustentável.

É, portanto, um direito dos povos a alimentos nutritivos e culturalmente adequados, acessíveis, produzidos de forma sustentável e ecológica. Além disso, a soberania alimentar é uma preocupação de todos nós. “Queremos estar mais próximos de produtos locais e sazonais. Temos de ter as coisas mais próximas do local onde são consumidas”, acrescentou Hogg.

Já o termo “food safety” foi definido como as preocupações e as medidas à volta da exclusão de factores nefastos no abastecimento de alimentos. Alimentos seguros são produtos livres de contaminantes de natureza química (agroquímicos), biológicas (organismos patogénicos), física ou de outras substâncias que possam colocar em risco a saúde dos cidadãos.

Segundo Tim Hogg, a segurança alimentar é obrigatória, mas mais segurança não traz necessariamente mais confiança, nem mais competitividade ao nível da sociedade como da empresa.

Por fim, “food satiety” (saciedade) diz respeito ao estado de satisfação ou de estar “cheio” que é sentido depois de comer. A saciedade é um vector importante no consumo alimentar nos países desenvolvidos.

No entanto, o mundo desenvolvido apresenta problemas de consumo em excesso que devem ser solucionados. E, neste sentido, a saciedade deve ser explorada ao nível psicológico, como também fisiológico.

Mais do que conceitos ou áreas de saber, estes “chavões” são janelas, através das quais vemos o mundo da alimentação, afirmou Tim Hogg. Assim, a nossa visão dos alimentos e da alimentação depende da janela – “Food Window” – que escolhemos.

Apesar da indústria alimentar europeia não passar ao lado desta janelas, enfrenta uma série de desafios, que permitirão o sucesso desta em 2020: necessidade de perceber a função cerebral em relação à dieta, a ligação entre a dieta e a função metabológica (obesidade e demais problemas), o comportamento do consumidor em relação à saúde e nutrição, entender a segurança alimentar, a sustentabilidade, desenvolvendo sistemas de produção sustentáveis e formando sinergias entre crescimento económico e protecção ambiental.