Congresso APN: Má nutrição é uma realidade em países com o maior PIB agrícola per capita

O problema da pobreza e má nutrição é uma realidade global, que afecta particularmente o continente africano, o (nosso) Sul da Europa e uma percentagem da Ásia. Este problema é tão mais grave quando sabemos que, paradoxalmente, são estas as regiões que apresentam o maior PIB agrícola per capita, sendo responsáveis pela maior produção agrícola e pelos índices elevados de importação.

Estas foram algumas das conclusões debatidas ontem no painel “Geofísica e Nutrição Humana”, no IX Congresso de Nutrição e Alimentação.

Qual a razão para esta contrariedade? De acordo com Ana Monteiro, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) e uma das intervenientes neste painel, estes países não detêm o conhecimento tecnológico e científico necessário para a transformação dos produtos agrícolas, o que acaba por condicionar a qualidade e qualidade de alimentos que fica para consumo interno.

No painel, foi ainda apresentado outro dado curioso.  É nos Estados Unidos da América e nos mais desenvolvidos países europeus que se regista o maior nível de ingestão de calorias, onde há uma menor preocupação com as questões da produção e onde menos se valorizam os alimentos no seu estado natural.

E outro dado interessante: um quarto dos países em desenvolvimento estão subalimentados. Surpresa? Talvez não.

Viriato Soromenho-Marques, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) e outro dos intervenientes no painel, referiu que perante este cenário é urgente encontrar um equilíbrio sustentável entre a produção e o consumo, sob pena de estarmos a destruir os recursos naturais e a pôr em causa a nossa saúde e qualidade de vida.

Segundo o especialista, existem uma série de factores que justificam a urgência de repensar a forma como estamos a fazer uso dos recursos, tais como as alterações climáticas (secas recorrentes, precipitação intensa), os fenómenos naturais imprevistos (erupções vulcânicas), as pressões sobre os territórios (maus planeamentos urbanísticos), as mudanças de disponibilidade da água e a vulnerabilidade económica dos países produtores.

A solução defendida passa, fundamentalmente, por uma “revolução verde”, que potencie a produção de forma sustentada, a aposta numa agricultura que combata as alterações climáticas e que garanta a sobrevivência das espécies, a produção agrícola nos centros urbanos, a ingestão de uma dieta mais orientada para os legumes e os vegetais e a diminuição da dependência de importações longínquas que aumentam a pegada ecológica.

Estes são pequenos passos – mas que podem começar já a ser instituídos, não acha? Voltaremos nos próximos dias a abordar as principais conclusões do Congresso da APN.