A viagem à Amazónia (parte II)

Por Hilário Saldanha

Durante a nossa viagem deparámo-nos com algumas diferenças existentes entre os ecopontos – pelo menos nesta parte do Brasil - e os ecopontos existentes em Portugal. Em primeiro lugar, existem quatro contentores de reciclagem para separar o papel, metal, plástico e vidro. No Brasil, as cores usadas para distinguir os ecopontos são o verde para o vidro, azul para o papel, amarelo para o metal e vermelho para o plástico.

A existência destes pontos de reciclagem nos vários sítios por onde passámos varia muito, dependendo do lugar em que nos encontrávamos.

Começando por falar dos locais por onde passámos na nossa longa viagem até Manaus –  e de regresso a Portugal –, notámos uma grande preocupação com a promoção da reciclagem nos aeroportos por onde fizemos escala. E também no destino. No aeroporto de Manaus, tal como no de Guarulhos (São Paulo) e Fortaleza, encontrámos sempre vários ecopontos à disposição para colocarmos as diferentes embalagens.

A zona da cidade de Manaus onde ficámos instalados é uma área mais recente da cidade. Aqui encontram-se facilmente ecopontos nas ruas. O hotel onde fomos acolhidos ocupa uma grande área com muitas zonas verdes, zonas lúdicas, um porto e até um zoo. E em todos estes locais podem-se encontrar pequenos ecopontos.

Em completo contraste, o centro de Manaus deixou-nos um pouco desiludidos pela falta de ecopontos e mesmo de caixotes do lixo. Assim, apenas os viemos a encontrar nas zonas mais turísticas. Para uma metrópole situada no interior da maior floresta tropical do mundo, a verdade é que esta situação deixa muito a desejar. E, apesar das muitas áreas verdes que se podem encontrar, Manaus não é uma cidade modelo no que diz respeito à protecção do meio ambiente.

Na selva amazónica ficámos instalados num hotel onde encontrámos muitos mini ecopontos distribuídos pelas zonas de lazer, áreas comuns e pelos longos passadiços que percorriam um extenso percurso dentro da floresta (cerca de 8km).

Nas comunidades que fomos visitando, notámos a inexistência de ecopontos para realizar a separação do lixo. Nota-se que estas pequenas comunidades não estão muito sensibilizadas para o que diz respeito à reciclagem e parece não existir um sistema organizado de recolha de resíduos.

A sensibilização ambiental da população local
Apesar de tudo, a população local tem consciência da riqueza da sua terra. Um grande exemplo disso é o Senhor Manuel, seringueiro residente numa pequena comunidade com cerca de 40 pessoas nas imediações do afluente Ariaú. Numa das últimas saídas de barco da nossa estadia, tivemos o privilégio de conhecer este senhor, que vive da criação de artesanato e das visitas dos turistas à sua comunidade.

Contudo, na época de crescimento da sua terra, o senhor Manuel, tal como grande parte da população local, viveu da extracção da borracha, material apartado da seringueira (Hevea brasiliensis), árvore originária da bacia hidrográfica do Rio Amazonas, local onde existia em abundância e com exclusividade.

À medida que golpeava a seringueira ou árvore da fortuna, o senhor Manuel explicava o processo de extracção da sua obra-prima. O látex escorria pelo tronco ferido da árvore e as palavras decoradas do senhor Manuel exprimiam o orgulho que o seu coração sentia na sua experiância de vida e, principalmente, na terra que pisava. Ao segurar na sua mão a faca de seringueiro, o senhor Manuel explicava que a semente “roubada” por ingleses teria provocado a ruptura e o declínio do ciclo da borracha na região Amazónica.

Todos os nativos que conhecemos nesta grande viagem testemunhavam nas suas palavras a missão de que estão agora delegados: a de honrar, respeitar e preservar o tesouro da humanidade, a maior floresta tropical do planeta, a Amazónia.

O turismo na Amazónia, apesar do impacto negativo no ambiente que poderá causar, devido à construção de cadeias de hotéis e todas as infra-estruturas de apoio aos exploradores é, de certa forma, um meio de consciencialização ambiental. Qualquer turista que visite a floresta, que contacte com as comunidades indígenas e com a riqueza da bacia do Amazonas volta para a sua selva de pedra, para a sua casa, com uma visão diferente da vida, com mais respeito pela vida selvagem e até humana.