Entrevista a Alexandra Bento, presidente da Associação Portuguesa dos Nutricionistas (Parte II)

 

Na segunda parte da entrevista a Alexandra Bento, a responsável fala sobre a importância da rotulagem nutricional para uma escolha consciente por parte dos consumidores e centra-se nos desafios da alimentação saudável e no combate aos excessos alimentares.

Protege o que é Bom: O que deveria ser feito para combater as doenças provocadas pelos excessos alimentares?

Alexandra Bento: A obesidade tem atingido de forma transversal todas as faixas etárias, desde os países desenvolvidos aos países em vias de desenvolvimento. Contudo, é em idades mais precoces que a obesidade se torna preocupante, uma vez que este estado ponderal poderá perdurar ao longo da vida adulta, contribuindo para o desenvolvimento de doenças crónicas associadas, como diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de cancro.

Desta forma, o combate à obesidade e a outras doenças provocadas por excessos alimentares passa por uma estratégia de prevenção concertada que assente na reestruturação dos hábitos alimentares, no aumento da actividade física e desportiva e também na implementação de programas educativos, escolares e institucionais, de carácter multissectorial.

É essencial que as crianças aprendam, desde cedo, os princípios da alimentação saudável e para isso é imprescindível o envolvimento de toda a família e de todas as pessoas e instituições que prestam cuidados às crianças e adolescentes na mudança de hábitos e comportamentos, assumindo a escola, neste último caso, um papel preponderante.

Da mesma forma, a actividade física deve ser estimulada, sendo fulcral consciencializar os pais a incentivarem os seus filhos a praticar algum tipo de desporto de forma regular e a deixarem a televisão e os jogos de computador para passarem a jogar à bola, andar de bicicleta, correr e saltar nos jardins e locais destinados ao lazer. É lógico que é necessário que as autarquias invistam na criação destes espaços, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e para uma realidade mais risonha para o futuro.

Além disso, são absolutamente fundamentais medidas de grande impacto mediático para que se consiga não só alertar e consciencializar a população para as consequências de saúde, qualidade de vida e económicas que a obesidade acarreta, mas também envolver todos os sectores da sociedade civil, incluindo o governo, as autarquias, as escolas e as empresas públicas e privadas na prevenção desta epidemia.

Protege o que é Bom: Poderá a rotulagem nutricional contribuir para uma escolha consciente por parte dos consumidores?
Alexandra Bento: A rotulagem permite aos consumidores saberem aquilo que comem! A análise e a interpretação da rotulagem nutricional são, sem dúvida, essenciais para que se façam as escolhas alimentares mais inteligentes e acertadas. Grande parte dos consumidores reconhece a importância da rotulagem nutricional, no entanto, apresentam alguma dificuldade na sua interpretação. As calorias e as gorduras são as variáveis às quais parecem prestar mais atenção.

Uma escolha saudável implica, entre outros:

- Preferir produtos alimentares com baixo teor de gorduras (particularmente saturadas) e colesterol;
- Não esquecer que na lista de ingredientes estes são mencionados seguindo a ordem decrescente do peso que tem no produto;
- Preferir alimentos com baixo teor de sódio;
- Optar por produtos alimentares com maior teor de fibra alimentar;
- Verificar a quantidade de hidratos de carbono e optar pelos produtos alimentares ricos em amido e pobres em açúcares.

Protege o que é Bom: O que significa para si praticar uma alimentação saudável?
Alexandra Bento: Praticar uma “alimentação saudável” significa tão simplesmente seguir os princípios da Roda dos Alimentos. Este instrumento de Educação Alimentar, em forma de prato, diz-nos que, na nossa alimentação diária, devemos comer mais dos alimentos que pertencem aos grupos de maior dimensão (frutos, hortícolas, cereais) e menos daqueles que apresentam menor tamanho (gorduras).

Leguminosas, carne, pescado e ovos e leite e produtos derivados devem ser consumidos diariamente de forma moderada. Devemos também dar preferência à água, cuja quantidade ao longo do dia deverá rondar, em média, 1,5 a 2L. Muito embora os alimentos dentro de cada grupo apresentem características nutricionais semelhantes, cada um deles é único, fornecendo-nos compostos que podem não existir noutros alimentos, tornando-se fundamental variar a nossa escolha dentro de cada grupo.

Um exemplo: a carne e o peixe incluem-se no mesmo grupo de alimentos, pois são os principais fornecedores de proteína na nossa dieta. O peixe, ao contrário da carne, é também fonte de ácido docosahexaenóico (DHA) e ácido eicosapentaenóico (EPA), conhecidos como ácidos gordos ómega 3. O EPA e o DHA parecem apresentar benefícios importantes para a nossa saúde, particularmente a nível cardiovascular.

Açúcar, bolos, bolachas, rissóis, batatas fritas e outros snacks… não estão contemplados na roda dos alimentos, devendo-se considerar o seu consumo como excepção nos dias festivos.
A mensagem que a Roda dos Alimentos nos passa é que a nossa alimentação deve ser equilibrada, variada e completa.

Protege o que é Bom: Corrobora a afirmação: “Somos realmente aquilo que comemos”?
Alexandra Bento: Sem dúvida alguma. A forma como nos alimentamos, mais ou menos correctamente, vai influenciar a nossa longevidade, o bem-estar físico e mental, o peso, as doenças que já temos ou possamos vir a ter. O que somos depende muito do que comemos na infância, na adolescência, na fase adulta, e muito provavelmente do que a nossa mãe já comeu, nomeadamente durante a gravidez.