Entrevista a Alexandra Bento, presidente da Associação Portuguesa dos Nutricionistas (Parte I)

Em entrevista ao Protege o que é Bom, Alexandra Bento diz que, em Portugal, “nunca tanto se ouviu falar de alimentação saudável” como agora, mas que os portugueses ainda cometem alguns erros básicos no que toca à alimentação equilibrada. Esta é a primeira parte – de três – de uma entrevista exclusiva da presidente da Associação Portuguesa dos Nutricionistas ao Protege o que é Bom.

Protege o que é Bom: Considera que os portugueses estão cada vez mais familiarizados com a temática da alimentação equilibrada?

Alexandra Bento: Nunca tanto se ouviu falar de alimentação saudável e equilibrada como nos dias que correm. De uma forma geral considero que os portugueses estão mais familiarizados com estas temáticas, no entanto, do saber ao fazer vai um grande passo. Os portugueses sabem que devem comer mais fruta, produtos hortícolas e leguminosas e menos carnes, gorduras e açúcares.

Para termos uma noção e tendo como referência o ano de 2003 e os valores de consumo diário recomendados pela Roda dos Alimentos, verifica-se que as capitações diárias apuradas pela última Balança Alimentar Portuguesa (BAP) apresentam diferenças assinaláveis com impacto no equilíbrio e qualidade da dieta. O português consome em média três vezes mais proteínas, obtidas a partir do grupo das “carnes e miudezas, pescado e ovos”, e gorduras, que o recomendado pelos nutricionistas e outros profissionais de saúde.

Pelo contrário, o consumo de produtos hortícolas é apenas cerca de metade da estrutura indicada pela Roda dos Alimentos. O consumo de frutos segue idêntica tendência, representando na BAP apenas 15% da capitação edível diária contra os 20% aconselhados pela Roda dos Alimentos. Já o consumo de cereais, raízes e tubérculos e de leite e derivados encontra-se próximo do recomendado.

No período de 1990 a 2003 assistiu-se, em Portugal, ao aumento do consumo dos produtos hortícolas (+45%), produtos estimulantes – café, misturas de café e seus sucedâneos, cacau e chocolate – (+45%), carnes e miudezas (+31%) e frutos (+31%). Com acréscimos mais moderados, sucederam-se os lacticínios (+19%), ovos (+14%), gorduras (+10 %), açúcares (+8%) e cereais (+4%). Em termos de decréscimos das capitações diárias, as maiores variações verificaram-se para as raízes e tubérculos (-35%) e leguminosas secas (-26%) e, mais moderadamente, no Pescado (-9%).

As gorduras de origem vegetal (óleos vegetais, azeite e margarinas) representaram, em 2003, 67% da capitação diária de gorduras, relegando as gorduras animais (manteiga, banha e toucinho) para segundo plano. É de salientar, contudo, a crescente importância do azeite, gordura esta com valor nutricional importante e com comprovados benefícios para a saúde, cujo consumo aumentou 86% no período em análise.
Tendo em conta a estrutura do consumo per capita das bebidas, no período em análise regista-se uma alteração do padrão de consumo, com as bebidas alcoólicas a perderem importância relativa, passando dos 65% da estrutura de consumo, em 1990, para 42% em 2003. A diminuição da importância do vinho, que em 14 anos atingiu os 13 p.p, afigura-se como a principal causa desta alteração estrutural. As águas tornaram-se, assim, a bebida com maior consumo per capita diário (29%), seguidas dos consumos de refrigerantes e sumos de frutos (29%).

A dieta alimentar portuguesa diária, expressa em termos de macronutrientes, tem como principal constituinte os hidratos de carbono, os quais representam 62% do total, seguidos das gorduras com 19%, proteínas com 16% e do álcool com 3%. Esta estrutura pouco se alterou no período em análise, salientando-se o aumento das capitações diárias de gorduras e proteínas de respectivamente 15% e 11% e o decréscimo da capitação de álcool em cerca de 19%. Como resultado dos aumentos verificados nas capitações diárias de macronutrientes, a dieta diária em calorias atingiu o valor de 3793 Kcal em 2003, o que representa um aumento de 6% em relação a 1990.

Os aumentos verificados nos consumos de gorduras devem-se essencialmente ao maior consumo de carne, de óleos e gorduras e de leite e derivados. Em relação às proteínas, o aumento da capitação diária deve-se ao maior consumo de carne e de leite e derivados, sendo a carne a principal fonte de proteínas no período em análise, mantendo o padrão alimentar gerado na década de 90.

Protege o que é Bom: Quais são os erros alimentares mais comuns e que a população portuguesa continua a cometer?

Alexandra Bento: Vivemos numa sociedade dominada pelo stress e pela pressa que, infelizmente, se repercute no nosso estilo de vida. A primeira refeição do dia é negligenciada por grande parte da população portuguesa, que prefere dormir mais cinco minutos em vez de os aproveitar para tomar pequeno-almoço em casa. Pior ainda é quando os pais transmitem estes hábitos às crianças, influenciando gravemente o seu comportamento alimentar na fase adulta.

É lógico que a falta de tempo é desfavorável à realização de um pequeno-almoço calmo e tranquilo, no entanto, não existem hoje em dia desculpas para se prolongar por demasiadas horas o jejum nocturno, na medida em que existe uma grande variedade de produtos alimentares, ditos saudáveis, fáceis de utilizar e de confecção e/ou preparação rápida.

Para se obter os máximos benefícios do pequeno-almoço, este deve ser variado, equilibrado e completo, combinando-se todos os nutrientes necessários ao nosso organismo. Assim deve ser composto idealmente por pão (de preferência escuro) ou flocos de cerais integrais, leite ou derivados e uma peça de fruta.

A maioria da população opta também por comer de forma abundante ao almoço e ao jantar, em vez de distribuir os alimentos em várias refeições por dia. O ideal é não ultrapassarmos mais de 3 – 3,5h sem comer. À semelhança do pequeno-almoço também não há desculpas para evitar as refeições mais ligeiras como as merendas da manhã e da tarde, que nos ocupam cinco minutos, e nos livram de passarmos horas e horas sem comer. Perfeito será, no mínimo, realizarmos 5 refeições diárias.

O abuso do sal, bem como do açúcar e das gorduras, sobretudo saturadas e trans, são outros erros clássicos da nossa população, que podem acarretar consequências sérias para a nossa saúde, nomeadamente hipertensão arterial, diabetes e problemas cardiovasculares.

Protege o que é Bom: Como justifica que Portugal apresente uma das taxas de obesidade infantil mais altas da Europa?

Alexandra Bento: A obesidade é um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. A prevalência desta doença triplicou em muitos países da Europa desde a década de 80, e o número de pessoas afectadas continua a aumentar a um ritmo e para níveis alarmantes, particularmente entre as crianças. As estatísticas referem que cerca de 20% das crianças europeias têm excesso de peso e, destas, um terço sofre de obesidade. A obesidade é actualmente responsável por 2 a 8% das despesas de saúde e por 10 a 13% das mortes registadas na Europa.

Se a prevalência desta doença continuar a aumentar ao mesmo ritmo das últimas duas décadas, cerca de 150 milhões de adultos na Europa poderão ser obesos em 2010. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, esta tendência parece estar a acentuar-se mesmo em países cujas taxas de obesidade registavam valores baixos, nomeadamente França, Holanda e Noruega.

Segundo um estudo da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, em 2000 aproximadamente 35% da população portuguesa entre os 18 e os 65 anos tinha excesso de peso e cerca de 14% era obesa. E este valor tem aumentado nas últimas décadas.

Dados de 2004 revelam que a prevalência da obesidade na infância e adolescência teve um rápido crescimento desde a década de 70 e a tendência parece ser para o aumento até 2010. Num estudo efectuado com 22 países europeus, Portugal aparece em quinto lugar com maior taxa de obesidade, atingindo 32% em crianças entre os 7 e os 11 anos de idade. De acordo, com o estudo da Plataforma contra a Obesidade da Direcção Geral da Saúde, desenvolvido em 2009, cerca de 32% das crianças do 1º Ciclo têm excesso de peso.

Estes números assustadores são justificáveis pela alteração dos factores ambientais, como o aumento da ingestão alimentar e a falta de exercício físico. Grande parte das crianças apresenta hábitos alimentares muito pouco equilibrados! Fazem uma alimentação com baixo consumo de vitaminas, minerais e fibras (poucos hortícolas e fruta) e com excesso de açúcar, gorduras saturadas e sal. A esta alimentação desequilibrada associa-se a reduzida prática de actividade física, a qual pode ser atribuída à diminuição de espaços livres apropriados para actividades ao ar livre e ao aparecimento de actividades lúdicas mais sedentárias (televisão e os jogos electrónicos e os jogos de computador).

A televisão parece desempenhar, de facto, um papel importante na génese da obesidade infantil, uma vez que, para além de reforçar o estilo de vida pouco activo, promove uma alimentação desequilibrada através da publicidade. Torna-se, por isso, importante reduzir o tempo que as crianças despendem a ver televisão, recomendando-se menos que 2 horas/dia.